Por Antônio
C Pereira
Desculpe, o que eu dizia? Ah sim, faz muito tempo, tanto tempo que
mal me lembro de como tudo isso começou. A situação estava muito
ruim mesmo, já não havia mais esperanças para mim, eu já havia
sido julgado e condenado a morte, mesmo não havendo essa pena já
naquela época no Brasil. O crime foi tão brutal que não existia
outra forma de punição para mim, a única coisa que me restava era
esperar o dia e a hora de ser punido, mesmo que injustamente.
A esperança e a vontade de viver já haviam me abandonado a tanto
tempo que me limitava a contar os dias para o fim do sofrimento,
afinal, já não existia nada para mim neste mundo, era um morto
ainda em vida. Irônico não? Tantas pessoas morrendo ainda na flor
da idade e com tanto para produzir, e eu vivo apenas implorando pelo
fim de tudo. Já havia perdido minha liberdade, minha patente
militar, e a pessoa que mais amava neste mundo, minha irmã. Apesar
de todo este quadro desesperador para a pessoas normais, para mim era
questão de honra manter o resto de minha dignidade e honrar o pouco
que sobrou de meu legado, meu autocontrole em momentos extremos.
….
Desculpe, estava divagando de novo e pode ser por causa do vinho, e
não se preocupe com datas, pois no fim, elas não fazem mais
diferença com o passar dos anos. Mas deixe-me avançar um pouco a
história, pois fiquei mais de um ano preso ainda esperando pelo
cumprimento de minha sentença, o fato essencial destes
acontecimentos se deu algumas noites antes de minha execução,
quando um homem veio ver-me, sendo a única visita que recebi em todo
o período pós prisão. Ao perguntar seu nome, ele apenas se limitou
a pigarrear e responder que nomes não eram importantes e que os
fatos sim.
….
Claro que darei detalhes quando pertinente, não se preocupe, apenas
deixe-me continuar. Ele veio devagar e disse algo que me acordou para
a realidade uma segunda vez, um breve suspiro de vida em meses de
mortes contínuas, dia após dia. Ele falou que sabia pelo que estava
passando, que não só perdera a liberdade, mas como a paz e a maior
joia que poderia ter. Minha liberdade foi retirada pelo crime que me
acusaram, minha paz se foi por ter sido além de tudo, ainda acusado
de usar de magia negra, e por ter usado minha irmã para tal, e por
fim por ter a vida de Elisa ceifada. O meu ilustre visitante me
ofereceu não só a liberdade e uma nova vida, como também a
possibilidade de me vingar por tudo o que me foi tirado e por tudo
aquilo que sofri. Não, não acreditei em tudo logo no começo, mas,
me foi dado um tempo para pensar e analisar tudo o que me cercava e o
que me esperava, e julguei ser melhor tentar me arriscar numa
fantasia qualquer a morrer em poucos dias.
Aquele que me ajudaria estava encostado na parede do lado oposto do
corredor, fora da cela, e parecendo bem íntimo da desgraça humana,
ao pronunciar o aceite ao seu plano e suas condições, notei um leve
contentamento em sua face pálida e longilínea que desapareceu em
uma fração de segundos. Ele pôs-se mais próximo da grade para me
entregar uma pílula vermelha explicando o meu procedimento par sair
do cativeiro, deveria ingerir a substância que por sua vez me
levaria a um estado de catalepsia, um estado de morte artificial,
depois seria enterrado em uma cova rasa direto no chão frio e úmido
em caixão fino, do qual deveria sair com facilidade, e ali teria
acesso às informações e tudo o que fosse necessário para cumprir
meu destino e ganhar uma nova vida. Mas fui advertido do risco,
deveria entrar em estado de morte durante o dia, para que ao início
da madrugada pudesse sair de minha cova, um leve erro de calculo e o
sol por sobre a cova me mataria com sua força e majestade tropical.
….
Longe de mim estar seguro do que estava fazendo meu amigo, longe
disso, mas ao olhar em volta e perceber o inferno no qual estava e no
que ainda estava por vir, não existia uma real escolha, os dois
caminhos eram perigosos, mas o que me fora apresentado aquela noite
trazia um breve cintilar de esperança. Ingeri a pílula de acordo
com as instruções, e descobri que morrer não era algo tão bom ou
indolor como pregavam os religiosos, foi algo tão doloroso e
tenebroso que me arrependo de ter embarcado nesta trama doentia. Será
que tudo não passara de um plano a fim de me enganarem, ou uma
vingança torpe de algum louco. E enquanto a minha vida passava à
minha frente e todos os tipos de arrependimentos e pensamentos
amaldiçoadores percorriam minha linha de raciocínio, o chão
aproximou-se de meu campo de visão, a dor tornou-se insuportável e
por fim, o negro denso e o silencio reconfortante. Era o fim, ou era
o começo? Com certeza, era algo único.
….
Sim, admito que parece confuso, que é fantasioso e que mais parece
conversa de bêbado ou de louco, mas ao fim desta narrativa verá,
meu colega, que nada faço além de lhe contar o que está por baixo
do véu do que intitulado como a verdade. O silencio, o calor e a
ausência de tudo era perturbadoramente aconchegante, instintivamente
sabia onde estava, os sons abafados vinha de cima de onde eu estava,
e o ar era abafado, porém não era tão escasso o quanto imaginei, e
ali fiquei, parado a baixo do nível do solo, apenas desejando que
essa sensação durasse pela eternidade. Contudo, o próprio corpo
reclamou, depois de um longo período em uma mesma posição, e foi
preciso emergir e buscar o ar livre de novo. E lá estava ele, aquele
estranho visitante sentado, espectral e imaterial, com um leve
sorriso perguntou se eu havia gostado da minha morte artificial, pois
só isso justificaria minha demora em romper o caixão e vir a
superfície, apenas concordei com a cabeça e esperei ávido para
entrar no assunto central de toda esta loucura. Ao perceber isso ele
logo recuperou o ar distante e irreal, contando-me a quem eu deveria
retribuir todo este inferno prematuro em minha existência.
Não seria algo fácil, o alvo era um proeminente membro da
sociedade carioca da época e ao expressar a minha preocupação, me
foi respondido que o plano já estava em andamento e que eu minha
única preocupação seria aproveitar a janela de ação para
executar o homem, com a intenção de me tranquilizar ainda mais, meu
libertador justificou que não se tratava apenas de minha vingança,
mas também de um acerto de contas por sua parte. Segundo uma breve
explanação, ainda à beira da cova rasa, foi dito que este homem
também era um antigo desafeto e que o enganara a muito tempo atrás.
Amenidades ritualísticas completa, me foi passado onde deveria estar
e meu equipamento, uma arma de fogo de potente e um grande punhal, eu
deveria apunhalar o peito de tal homem de depois atirar em sua
cabeça, nada muito longe do que me foi ensinado no exército em
combate.
….
Vejo que enfim capturei sua atenção, sim aí vem o clímax. Eu
deveria aguardar em um hotel pulgueiro no centro da cidade e lá me
lavar e me preparar para executar o plano durante a próxima noite, e
foi o que fiz, limpei-me e adormeci, permaneci mergulhado num sono
profundo durante todo o dia, despertando ao alvorecer, o dia fora
muito quente e os pesadelos só me fizeram parecer que dormi num
deserto em pleno dia, houve tempo para mais um banho rápido antes de
vestir as roupas finas que me foram cedidas e posteriormente me
encaminhei para a taberna. Eu deveria esperar o boêmio chegar e me
manter atento, pois assim que ele se pusesse a encaminho de outro
estabelecimento eu deveria segui-lo e matá-lo em alguma viela
coberta pela noite densa, o clima sem luar me ajudaria a manter a
discrição. Ele chegou e o relógio já marcava mais de dez horas
finamente vestido e muito comunicativo, jovial até mesmo aparentado
passar dos quarenta, e nesta taberna nos mantivemos ainda por um
longo período, e somente as três horas da madrugada saímos de lá,
ele a frente e eu em seu encalço, nas sombras, mantendo a respiração
controlada e o coração em ritmo lente. Ao passarmos pela quinta
viela o homem da qual me mantinha a curta distância se virou, pude
ver de relance seus olhos felinos varrendo o beco. Era chegado a hora
da desforra.
Caminhei mais rápido para alcançá-lo e o surpreendi ainda na
metade do beco, com a investida o punhal cravou-lhe por entre as
costelas até a guarda, ele por sua vez gemeu e sussurrou alguns
palavrões, caiu de joelhos e por fim bateu com a cabeça no chão
imundo, olhei-o por alguns instantes e chequei se respirava, mas nada
me indicava que ainda estava vivo. Vingado virei-me para empreender a
fuga recolhendo apenas o punhal, a arma do crime. Mas antes que
pudesse avançar ao fim da viela fui detido por uma forte pancada que
me desfaleceu. Minhas últimas lembranças foram apenas fragmentos
desconexos, eu sendo erguido e ferido no pescoço, o rosto demoníaco
daquele que podia jurar ter matado, se embriagando com meu sangue que
vertia, e, por fim, o grito de dez leões que saia boca dele,
bradando que “mais uma vez Ceifador, você falhou, e este vampiro
viverá pela e para a eternidade”.

Amigo/aluno/colega,
ResponderExcluirficou muito bom! Algo como uma "fantasia nerd de terror"... Gostei mesmo!
Abraços