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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O Início do Fim

Por Antônio C Pereira

     Desculpe, o que eu dizia? Ah sim, faz muito tempo, tanto tempo que mal me lembro de como tudo isso começou. A situação estava muito ruim mesmo, já não havia mais esperanças para mim, eu já havia sido julgado e condenado a morte, mesmo não havendo essa pena já naquela época no Brasil. O crime foi tão brutal que não existia outra forma de punição para mim, a única coisa que me restava era esperar o dia e a hora de ser punido, mesmo que injustamente.
A esperança e a vontade de viver já haviam me abandonado a tanto tempo que me limitava a contar os dias para o fim do sofrimento, afinal, já não existia nada para mim neste mundo, era um morto ainda em vida. Irônico não? Tantas pessoas morrendo ainda na flor da idade e com tanto para produzir, e eu vivo apenas implorando pelo fim de tudo. Já havia perdido minha liberdade, minha patente militar, e a pessoa que mais amava neste mundo, minha irmã. Apesar de todo este quadro desesperador para a pessoas normais, para mim era questão de honra manter o resto de minha dignidade e honrar o pouco que sobrou de meu legado, meu autocontrole em momentos extremos.
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     Desculpe, estava divagando de novo e pode ser por causa do vinho, e não se preocupe com datas, pois no fim, elas não fazem mais diferença com o passar dos anos. Mas deixe-me avançar um pouco a história, pois fiquei mais de um ano preso ainda esperando pelo cumprimento de minha sentença, o fato essencial destes acontecimentos se deu algumas noites antes de minha execução, quando um homem veio ver-me, sendo a única visita que recebi em todo o período pós prisão. Ao perguntar seu nome, ele apenas se limitou a pigarrear e responder que nomes não eram importantes e que os fatos sim.
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     Claro que darei detalhes quando pertinente, não se preocupe, apenas deixe-me continuar. Ele veio devagar e disse algo que me acordou para a realidade uma segunda vez, um breve suspiro de vida em meses de mortes contínuas, dia após dia. Ele falou que sabia pelo que estava passando, que não só perdera a liberdade, mas como a paz e a maior joia que poderia ter. Minha liberdade foi retirada pelo crime que me acusaram, minha paz se foi por ter sido além de tudo, ainda acusado de usar de magia negra, e por ter usado minha irmã para tal, e por fim por ter a vida de Elisa ceifada. O meu ilustre visitante me ofereceu não só a liberdade e uma nova vida, como também a possibilidade de me vingar por tudo o que me foi tirado e por tudo aquilo que sofri. Não, não acreditei em tudo logo no começo, mas, me foi dado um tempo para pensar e analisar tudo o que me cercava e o que me esperava, e julguei ser melhor tentar me arriscar numa fantasia qualquer a morrer em poucos dias.
Aquele que me ajudaria estava encostado na parede do lado oposto do corredor, fora da cela, e parecendo bem íntimo da desgraça humana, ao pronunciar o aceite ao seu plano e suas condições, notei um leve contentamento em sua face pálida e longilínea que desapareceu em uma fração de segundos. Ele pôs-se mais próximo da grade para me entregar uma pílula vermelha explicando o meu procedimento par sair do cativeiro, deveria ingerir a substância que por sua vez me levaria a um estado de catalepsia, um estado de morte artificial, depois seria enterrado em uma cova rasa direto no chão frio e úmido em caixão fino, do qual deveria sair com facilidade, e ali teria acesso às informações e tudo o que fosse necessário para cumprir meu destino e ganhar uma nova vida. Mas fui advertido do risco, deveria entrar em estado de morte durante o dia, para que ao início da madrugada pudesse sair de minha cova, um leve erro de calculo e o sol por sobre a cova me mataria com sua força e majestade tropical.
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     Longe de mim estar seguro do que estava fazendo meu amigo, longe disso, mas ao olhar em volta e perceber o inferno no qual estava e no que ainda estava por vir, não existia uma real escolha, os dois caminhos eram perigosos, mas o que me fora apresentado aquela noite trazia um breve cintilar de esperança. Ingeri a pílula de acordo com as instruções, e descobri que morrer não era algo tão bom ou indolor como pregavam os religiosos, foi algo tão doloroso e tenebroso que me arrependo de ter embarcado nesta trama doentia. Será que tudo não passara de um plano a fim de me enganarem, ou uma vingança torpe de algum louco. E enquanto a minha vida passava à minha frente e todos os tipos de arrependimentos e pensamentos amaldiçoadores percorriam minha linha de raciocínio, o chão aproximou-se de meu campo de visão, a dor tornou-se insuportável e por fim, o negro denso e o silencio reconfortante. Era o fim, ou era o começo? Com certeza, era algo único.
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     Sim, admito que parece confuso, que é fantasioso e que mais parece conversa de bêbado ou de louco, mas ao fim desta narrativa verá, meu colega, que nada faço além de lhe contar o que está por baixo do véu do que intitulado como a verdade. O silencio, o calor e a ausência de tudo era perturbadoramente aconchegante, instintivamente sabia onde estava, os sons abafados vinha de cima de onde eu estava, e o ar era abafado, porém não era tão escasso o quanto imaginei, e ali fiquei, parado a baixo do nível do solo, apenas desejando que essa sensação durasse pela eternidade. Contudo, o próprio corpo reclamou, depois de um longo período em uma mesma posição, e foi preciso emergir e buscar o ar livre de novo. E lá estava ele, aquele estranho visitante sentado, espectral e imaterial, com um leve sorriso perguntou se eu havia gostado da minha morte artificial, pois só isso justificaria minha demora em romper o caixão e vir a superfície, apenas concordei com a cabeça e esperei ávido para entrar no assunto central de toda esta loucura. Ao perceber isso ele logo recuperou o ar distante e irreal, contando-me a quem eu deveria retribuir todo este inferno prematuro em minha existência.
Não seria algo fácil, o alvo era um proeminente membro da sociedade carioca da época e ao expressar a minha preocupação, me foi respondido que o plano já estava em andamento e que eu minha única preocupação seria aproveitar a janela de ação para executar o homem, com a intenção de me tranquilizar ainda mais, meu libertador justificou que não se tratava apenas de minha vingança, mas também de um acerto de contas por sua parte. Segundo uma breve explanação, ainda à beira da cova rasa, foi dito que este homem também era um antigo desafeto e que o enganara a muito tempo atrás. Amenidades ritualísticas completa, me foi passado onde deveria estar e meu equipamento, uma arma de fogo de potente e um grande punhal, eu deveria apunhalar o peito de tal homem de depois atirar em sua cabeça, nada muito longe do que me foi ensinado no exército em combate.
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     Vejo que enfim capturei sua atenção, sim aí vem o clímax. Eu deveria aguardar em um hotel pulgueiro no centro da cidade e lá me lavar e me preparar para executar o plano durante a próxima noite, e foi o que fiz, limpei-me e adormeci, permaneci mergulhado num sono profundo durante todo o dia, despertando ao alvorecer, o dia fora muito quente e os pesadelos só me fizeram parecer que dormi num deserto em pleno dia, houve tempo para mais um banho rápido antes de vestir as roupas finas que me foram cedidas e posteriormente me encaminhei para a taberna. Eu deveria esperar o boêmio chegar e me manter atento, pois assim que ele se pusesse a encaminho de outro estabelecimento eu deveria segui-lo e matá-lo em alguma viela coberta pela noite densa, o clima sem luar me ajudaria a manter a discrição. Ele chegou e o relógio já marcava mais de dez horas finamente vestido e muito comunicativo, jovial até mesmo aparentado passar dos quarenta, e nesta taberna nos mantivemos ainda por um longo período, e somente as três horas da madrugada saímos de lá, ele a frente e eu em seu encalço, nas sombras, mantendo a respiração controlada e o coração em ritmo lente. Ao passarmos pela quinta viela o homem da qual me mantinha a curta distância se virou, pude ver de relance seus olhos felinos varrendo o beco. Era chegado a hora da desforra.

     Caminhei mais rápido para alcançá-lo e o surpreendi ainda na metade do beco, com a investida o punhal cravou-lhe por entre as costelas até a guarda, ele por sua vez gemeu e sussurrou alguns palavrões, caiu de joelhos e por fim bateu com a cabeça no chão imundo, olhei-o por alguns instantes e chequei se respirava, mas nada me indicava que ainda estava vivo. Vingado virei-me para empreender a fuga recolhendo apenas o punhal, a arma do crime. Mas antes que pudesse avançar ao fim da viela fui detido por uma forte pancada que me desfaleceu. Minhas últimas lembranças foram apenas fragmentos desconexos, eu sendo erguido e ferido no pescoço, o rosto demoníaco daquele que podia jurar ter matado, se embriagando com meu sangue que vertia, e, por fim, o grito de dez leões que saia boca dele, bradando que “mais uma vez Ceifador, você falhou, e este vampiro viverá pela e para a eternidade”.  

Um comentário:

  1. Amigo/aluno/colega,

    ficou muito bom! Algo como uma "fantasia nerd de terror"... Gostei mesmo!

    Abraços

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