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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Apenas mais um dia de trabalho

Por Antônio Carlos Pereira

O tempo estava diferente naquela noite de inverno, já o clima, como o esperado, mas a noite clara com a lua nova tão fina quanto um sorriso feminino era incomum de ser visto, e que acentuava bastante a sensação de frio no Sul. Seria muito convidativo sentar em um tronco caído de árvore e observar esse andar da lua despreocupada pelo céu, mas em Três Saltos ninguém o podia fazê-lo, o trabalho vinha em primeiro lugar. A satisfação, se possível tinha que vir rápida, arrebatadora e facilmente superável, e com Susana não era diferente, seu trabalho exigia o máximo de atenção e cuidado, deixar marcas perceptíveis era uma coisa que largara no passado muito distante, quando começou a fazer o que ninguém mais queria ou ousava, era preciso ter estômago forte, muito amor-próprio e sangue frio para executá-lo.
Neste momento, ao ver a cancela de seu destino, ela ainda se encontrava abalada, a vontade de “perder” uma jornada de trabalho a incomodava, a noite era muito agradável e em mais ou menos 30 anos vira no máximo dez noites dessa, todavia, a sua consciência mangava “está ficando velha meu amor”. Sacudiu a cabeça e voltou a prestar atenção na manobra, o carro não era um modelo popular, esbarrar em algo no momento da baliza só fortaleceria a vontade de voltar para casa e abrir uma boa garrafa de vinho, se sentar à janela com a caixa de recordações para tingir de novo as lembranças desbotadas. Era simples, pisar, engatar, pisar com o outro pé olhando para todos os lados possíveis até a marca amarela desaparecer da vista atrás do porta-malas, fazia esse exercício ao fundo da garagem a cada 48 horas, independente do clima ou da época do ano, mais uma vez, era preciso ter fibra para estacionar e entrar no prédio, ela encarava o que mais ninguém se sujeitava a fazer, seus amigos mais próximos não apareciam a meses, pais já “estavam num lugar melhor”, embora esse termo só usasse em momentos de solidão o para si mesma, poucas pessoas dividiam seu cotidiano, e via uma infinidade de pessoas de todos os gêneros, idades, orientações e credos durante o trabalho, em geral pouco comunicativos e na “horizontal”. O que para sociedade era um barco naufragando a braçadas largas no Triângulo das Bermudas, para ela era uma forma de manter as contas em dia, afinal, a solidão refinava o gosto, o que por sua vez, aumentava os custos ao fim do mês.
Era hora de desligar o motor, sair e trancar o carro. Já era conhecida e, por isso, a sua demora em sair do carro poderia dar uma má impressão, não se importava se os outros pensariam que ela estivesse sendo assaltada, ou não estivesse passando bem, sua preocupação era não passar insegurança, isso era mortal nos seus afazeres e logo se espalharia como o vírus da gripe, e mortal como o ebola. Mais uma vez, mecânica, saiu do carro, bateu a porta e trancou, verificou se trancara corretamente e começou a andar, passou pelo vigia do estacionamento e cumprimentou fria e séria como sempre, mas ao que parece, uma mulher fria, séria, aos 34, era tão algo magnético como um super ímã, pois mesmo sem olhar para trás sentia os olhos do homem a lhe seguir, isso a desconcertava sempre ao ponto de perder o jeito de andar, mesmo assim seus cabelos negros longos e bem cuidas tornavam esse desarranjo ao andar bem menos perceptível, mais uma vez se lembrou que a insegurança é igual a morte profissional, passou pela portaria do prédio, cumprimento friamente o porteiro, olhou-o nos olhos e viu o complemento da frase dita pelo homem através das pupilas do dele:
– Boa noite senhor Gustavo, tudo calmo hoje? A voz de Susana, soava metálica e sem emoção aos próprios ouvidos.
- Boa, tudo beleza, e que lua... Mas no lugar das reticências que morre ao fim da frase do porteiro, ela pode ouvir o prolongamento da fala, “e que lua ' rainha do gelo '”.
Era assim nomeada por todos aqueles que participavam do seu “dia a dia” do necrotério, ouvia os bochichos nos corredores, alguns se calavam quando ela passava, outros continuavam como se não a tivessem visto e isso no fundo a magoava, não era um autômato ou frígida socialmente, era apenas um mecanismo de defesa que gostaria um dia de romper e sentir-se como uma semente que eclode do solo em busca do sol e do ar livre, mas agora era hora de trabalhar e não de sonhar. Passou pelo saguão ainda cumprimentando mecanicamente e sistematicamente até chegar ao balção principal, para finalmente ter uma conversa sem reservas com a secretária da noite.
– Boa noite Carhisma, já viu a lua essa noite?
– Não dout...
– Um hum, pigarreou a legista.
– Não Sue, assim que tiver terminado meu jantar eu vou dar uma olhada. A face de Carhisma levemente ruborizada enterneceu Susana.
– Ok, daqui a pouco então.
– Não 'pera, tem alguém….
Doutora Susana de Andrade Werther, não conseguiu captar a voz da amiga, além de já ter começado a andar rumo ao vestiário para se trocar, sua mente já estava a quilômetros da realidade. Por que aquele apreço por uma menina que só estava ali para pagar a faculdade e passar pelos mais estranhos constrangimentos sociais possível? Se via nela? Não, a via como filha, a ideia sobressaltou Sue, não se via como mãe, teria de abrir mão de muita coisa e ainda não estava preparada, nunca estaria. Além do mais era necessário primeiro romper a concha social na qual se protegia, era preciso ter um relacionamento e…. Disseram certa vez, que só os médicos poderiam entender a rotina de outros médicos, seguindo esse fluxo, começou a se encontrar com um ginecologista, e quem poderia entender mais de mulheres médicas do que um doutor ginecologista? Mas arrependeu-se, não que ele não a entendeu, só tinha uns desejos que para ela estranhos que passaram longe de agradá-la.
Interrompeu o fluxo, era hora de trabalhar, já havia se trocado da forma convencional e estranha, como o Superman daquela série bem antiga, entre na cabine de terno e saia de colam e cueca por cima da calça, é a pressa “parceiro”, mas para ela era diferente: pare em frente ao armário desça a saia e sobe a blusa, sobe o macacão azul e fecha, mas sem capa para ficar presa na porta ou calcinha a mostra, pelo menos isso já era um alento.
– O que temos hoje? Humm... -essa frase ritualística sempre marcava o início do fim de suas horas de pessoa normal.
Era o momento de ver os formulários e separar o que, ou quem, precisava ser ter seu laudo pericial primeiro, em geral, as mortes violentas oriundas de crimes eram os primeiros da fila, enquanto que os exóticos ficavam por último afinal, temos que fazer a nossa parte para que a lei ande, caso ela queira. O ritual continuou com a leitura e voz alta da papelada para que o silêncio se quebrasse, afinal, é um necrotério e a maioria dos ocupantes não falam.
– Vynícius Karman, 35 anos, e pelo que vejo foi engasgo, vamos ver a segunda opção da noite. Senhora X, sem documentos e provável trauma encefálico, e o terceiro, sem identificação também senhor Y? Perfurações por provável arma de fogo. Temos um eleito.
Os instrumentos metodicamente foram organizados como sempre para agilizar o trabalho, dessa forma a visualização dos instrumentos cirúrgicos era de forma mental, já fizera isso tantas vezes que apenas pela localização e peso sabia o que tinha da mão e como usá-lo. Era a hora da magia. Começaria pelo já estereotipado corte em Y, uma incisão -TUM!!!! – pancada no metal de algum lugar a sua esquerda, lâmina sete no chão.
– O que? A luz piscou rapidamente, enquanto o som abafado de pancada no metal se dissolveu no ar.
“Calma Susana, você está sobre grande pressão, não tem nada de estranho”, não era incomum ouvir sons estranhos ali, o silêncio em certos setores era tão profundo que o bisturi cortava além de superfícies das mais diversas, o silêncio constante, só abalado pelo chiadinho beeemmmm baixxxxiiiinho do “ffffrrrezer”. Abaixou-se para pegar a ferramenta e limpá-la, isso era incomum a Susana, instrumentos caindo de sua suave, porém firme mão, voltou junto à primeira bancada de metal, posicionou-se ainda ansiosa, posicionou o corpo para -TUDUM!!!!-, e a gaveta M-41 estremeceu em sua mente. Isso era demais para ela, era hora e ir tomar um café e deixar essas miragens auditivas descansarem até afundarem no seu subconsciente e ali permanecerem. Percorreu o caminho mais longo para a sala de recreação e refeitório, e ao cruzar o saguão viu apenas a boca de Carhisma se mover, de forma lenta e longa, mas a articulação pareceu jamais chegar aos tímpanos, percorrer o seu ouvido médio e interior até se tornar apenas sinais para o seu cérebro bagunçado no momento. Somente ao chegar no cantinho do café compreendeu a fala de moça formando ecos de um passado tão longe e tão perto ao mesmo tempo.
– Alguém quer me ver? Sua própria voz saia como se percorresse uma longa tubulação metálica.
– Doutora Werther, tem um minuto? Preciso conversar com a senhora. A voz masculina emanada da entrada da saleta a trouxe a realidade, como quem acorda de um sonho no qual caíra do alto de um prédio bem grande.
– Pois não? Se for bem rápido, eu tenho uma noite bem longa pela frente e não posso me demorar fora do meu postos, novas regras….
– Acho que seus pacientes não vão se incomodar se houver uns 10 minutos de conversa entre nós, diz o homem, vestido de branco, num terno bem cortado e sapatos novos, italianos sem dúvidas, a bengala cor de ébano contrasta com a roupa, o rosto liso e o cabelo grisalho integravam uma imagem respeitável.
– Claro, desde que não tente me evangelizar, Sue se espantou com a própria ironia, não sabia se o a ironia inicial do homem a contaminou, se foi o sotaque, ou a situação em si, mas estava levemente inclinada a ouvir o….
– Seu nome é?
– Desculpe, Harold, doutor Willian Harold, Traumatologista e ex médico do exercito inglês.
– Como?
– Meu português está errado?
– Inglês? O que é isso? Se veio por causa da nova política do governos está no lugar errado meu amigo.
– Não, eu não vim por isso, vim por saber que era seu turno e que poderia trocar algumas informações.
– Eu nem te conheço.
Susana se avançou violentamente, decidida a chamar a segurança, mas o homem a interrompeu com a frase:
– Eu sei o que está lá e é isso que eu quero lhe alertar, tem algo de muito errado aqui e lá no fundo você sabe, e já sentiu.
– Doido, só pode ser. Mais uma vez, Sue experimentou o sabor de uma emoção, essa noite foram tantas que sua boca se tornara ácida em demasia.
Desorientada, Susana partiu novamente para seus afazeres e deixar tudo isso de lado, sabe que lá ninguém entraria sem sua permissão, não importando o argumento, título ou nacionalidade. Passou tão rápido que quase nota, mas não de todo, outra figura nova no saguão, outro homem, alto e com a famosa e chamativa camisa da seleção brasileira, e só por isso ela o viu, de canto de olho conversando com Carhisma, estranho, que noite. Ela ouviu seu nome ser chamado pelo doutor Harold, e o toc-toc da bengala, podia imaginar o porque de seu uso, os passos dele eram irregulares, talvez um defeito congênito, acidente, que importância tinha? Depois que entrasse em seu castelo, a rainha de gelo não poderia ser mais alcançada. A porta foi atravessada e o auge da bizarrice da noite se manifestou, gaveta aberta, e o mais estranho era tratar-se da terceira gaveta, ela conseguiu ver um homem embaixo da prancha segurando desesperadamente dois braços flácidos que se debatiam e tentavam arranhar as mangas do terno de seu perto comum, enquanto um outro homem segurava uma lâmina inox, de dois palmos talvez, fazendo mira.
– Mierda, asiéndose la cabeza, o se quedará toda la noche.
– Cara, eu sou da ABIN e não especialista em judô, ou seja lá o que for.
– Mas o que significa isso? Susana gofou entre o nervosismo e o espanto.
– Isso vai ser difícil de explicar, desculpem me amigos, acho que não fui tão efetivo em mantê-la ocupada. Harold se voltou para Susana e disse, sabe aquelas histórias de gente voltando da morte e saindo da cova para matar mais gente? Pois então, já não é mais ficção.

Um grunhido sobe, um facão desce, uma cabeça rola, o homem de terno pragueja, e a Doutora Susana em pouco mais de duas horas perde o chão, o castelo, e o senso de realidade, em apenas um baque de metal quando encontra outra superfície de metal, e acorda para o pesadelo, com o baque oco de uma cabeça no piso, que ainda mexe as mandíbulas e abre os olhos brancos como a névoa das manhas de Três Saltos.

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