Por Antônio Carlos Pereira
O
tempo estava diferente naquela noite de inverno, já o clima, como o
esperado, mas a noite clara com a lua nova tão fina quanto um
sorriso feminino era incomum de ser visto, e que acentuava bastante a
sensação de frio no Sul. Seria muito convidativo sentar em um
tronco caído de árvore e observar esse andar da lua despreocupada
pelo céu, mas em Três Saltos ninguém o podia fazê-lo, o trabalho
vinha em primeiro lugar. A satisfação, se possível tinha que vir
rápida, arrebatadora e facilmente superável, e com Susana não era
diferente, seu trabalho exigia o máximo de atenção e cuidado,
deixar marcas perceptíveis era uma coisa que largara no passado
muito distante, quando começou a fazer o que ninguém mais queria ou
ousava, era preciso ter estômago forte, muito amor-próprio e sangue
frio para executá-lo.
Neste
momento, ao ver a cancela de seu destino, ela ainda se encontrava
abalada, a vontade de “perder” uma jornada de trabalho a
incomodava, a noite era muito agradável e em mais ou menos 30 anos vira no máximo
dez noites dessa, todavia, a sua consciência mangava “está
ficando velha meu amor”. Sacudiu a cabeça e voltou a prestar
atenção na manobra, o carro não era um modelo popular, esbarrar em
algo no momento da baliza só fortaleceria a vontade de voltar para
casa e abrir uma boa garrafa de vinho, se sentar à janela com a
caixa de recordações para tingir de novo as lembranças desbotadas.
Era simples, pisar, engatar, pisar com o outro pé olhando para todos
os lados possíveis até a marca amarela desaparecer da vista atrás
do porta-malas, fazia esse exercício ao fundo da garagem a cada 48
horas, independente do clima ou da época do ano, mais uma vez, era
preciso ter fibra para estacionar e entrar no prédio, ela encarava o
que mais ninguém se sujeitava a fazer, seus amigos mais próximos
não apareciam a meses, pais já “estavam num lugar melhor”,
embora esse termo só usasse em momentos de solidão o para si mesma,
poucas pessoas dividiam seu cotidiano, e via uma infinidade de
pessoas de todos os gêneros, idades, orientações e credos durante
o trabalho, em geral pouco comunicativos e na “horizontal”. O que
para sociedade era um barco naufragando a braçadas largas no
Triângulo das Bermudas, para ela era uma forma de manter as contas
em dia, afinal, a solidão refinava o gosto, o que por sua vez,
aumentava os custos ao fim do mês.
Era
hora de desligar o motor, sair e trancar o carro. Já era conhecida
e, por isso, a sua demora em sair do carro poderia dar uma má
impressão, não se importava se os outros pensariam que ela
estivesse sendo assaltada, ou não estivesse passando bem, sua
preocupação era não passar insegurança, isso era mortal nos seus
afazeres e logo se espalharia como o vírus da gripe, e mortal como o
ebola. Mais uma vez, mecânica, saiu do carro, bateu a porta e
trancou, verificou se trancara corretamente e começou a andar,
passou pelo vigia do estacionamento e cumprimentou fria e séria como
sempre, mas ao que parece, uma mulher fria, séria, aos 34, era tão
algo magnético como um super ímã, pois mesmo sem olhar para trás
sentia os olhos do homem a lhe seguir, isso a desconcertava sempre ao
ponto de perder o jeito de andar, mesmo assim seus cabelos negros
longos e bem cuidas tornavam esse desarranjo ao andar bem menos
perceptível, mais uma vez se lembrou que a insegurança é igual a
morte profissional, passou pela portaria do prédio, cumprimento
friamente o porteiro, olhou-o nos olhos e viu o complemento da frase
dita pelo homem através das pupilas do dele:
–
Boa noite senhor Gustavo, tudo calmo hoje? A voz de Susana, soava
metálica e sem emoção aos próprios ouvidos.
-
Boa, tudo beleza, e que lua... Mas no lugar das reticências que
morre ao fim da frase do porteiro, ela pode ouvir o prolongamento da
fala, “e que lua ' rainha do gelo '”.
Era
assim nomeada por todos aqueles que participavam do seu “dia a dia”
do necrotério, ouvia os bochichos nos corredores, alguns se calavam
quando ela passava, outros continuavam como se não a tivessem visto
e isso no fundo a magoava, não era um autômato ou frígida
socialmente, era apenas um mecanismo de defesa que gostaria um dia de
romper e sentir-se como uma semente que eclode do solo em busca do
sol e do ar livre, mas agora era hora de trabalhar e não de sonhar.
Passou pelo saguão ainda cumprimentando mecanicamente e
sistematicamente até chegar ao balção principal, para finalmente
ter uma conversa sem reservas com a secretária da noite.
–
Boa noite Carhisma, já viu a lua essa noite?
–
Não dout...
–
Um hum, pigarreou a legista.
–
Não Sue, assim que tiver terminado meu jantar eu vou dar uma
olhada. A face de Carhisma levemente ruborizada enterneceu Susana.
–
Ok, daqui a pouco então.
–
Não 'pera, tem alguém….
Doutora
Susana de Andrade Werther, não conseguiu captar a voz da amiga, além
de já ter começado a andar rumo ao vestiário para se trocar, sua
mente já estava a quilômetros da realidade. Por que aquele apreço
por uma menina que só estava ali para pagar a faculdade e passar
pelos mais estranhos constrangimentos sociais possível? Se via nela?
Não, a via como filha, a ideia sobressaltou Sue, não se via como
mãe, teria de abrir mão de muita coisa e ainda não estava
preparada, nunca estaria. Além do mais era necessário primeiro
romper a concha social na qual se protegia, era preciso ter um
relacionamento e…. Disseram certa vez, que só os médicos poderiam
entender a rotina de outros médicos, seguindo esse fluxo, começou a
se encontrar com um ginecologista, e quem poderia entender mais de
mulheres médicas do que um doutor ginecologista? Mas arrependeu-se,
não que ele não a entendeu, só tinha uns desejos que para ela
estranhos que passaram longe de agradá-la.
Interrompeu
o fluxo, era hora de trabalhar, já havia se trocado da forma
convencional e estranha, como o Superman daquela série bem antiga,
entre na cabine de terno e saia de colam e cueca por cima da calça,
é a pressa “parceiro”, mas para ela era diferente: pare em
frente ao armário desça a saia e sobe a blusa, sobe o macacão azul
e fecha, mas sem capa para ficar presa na porta ou calcinha a mostra,
pelo menos isso já era um alento.
–
O que temos hoje? Humm... -essa frase ritualística sempre marcava o
início do fim de suas horas de pessoa normal.
Era
o momento de ver os formulários e separar o que, ou quem, precisava
ser ter seu laudo pericial primeiro, em geral, as mortes violentas
oriundas de crimes eram os primeiros da fila, enquanto que os
exóticos ficavam por último afinal, temos que fazer a nossa parte
para que a lei ande, caso ela queira. O ritual continuou com a
leitura e voz alta da papelada para que o silêncio se quebrasse,
afinal, é um necrotério e a maioria dos ocupantes não falam.
–
Vynícius Karman, 35 anos, e pelo que vejo foi engasgo, vamos ver a
segunda opção da noite. Senhora X, sem documentos e provável
trauma encefálico, e o terceiro, sem identificação também senhor
Y? Perfurações por provável arma de fogo. Temos um eleito.
Os
instrumentos metodicamente foram organizados como sempre para
agilizar o trabalho, dessa forma a visualização dos instrumentos
cirúrgicos era de forma mental, já fizera isso tantas vezes que
apenas pela localização e peso sabia o que tinha da mão e como
usá-lo. Era a hora da magia. Começaria pelo já estereotipado corte
em Y, uma incisão -TUM!!!! – pancada no metal de algum lugar a sua
esquerda, lâmina sete no chão.
–
O que? A luz piscou rapidamente, enquanto o som abafado de pancada
no metal se dissolveu no ar.
“Calma
Susana, você está sobre grande pressão, não tem nada de
estranho”, não era incomum ouvir sons estranhos ali, o silêncio
em certos setores era tão profundo que o bisturi cortava além de
superfícies das mais diversas, o silêncio constante, só abalado
pelo chiadinho beeemmmm baixxxxiiiinho do “ffffrrrezer”.
Abaixou-se para pegar a ferramenta e limpá-la, isso era incomum a
Susana, instrumentos caindo de sua suave, porém firme mão, voltou
junto à primeira bancada de metal, posicionou-se ainda ansiosa,
posicionou o corpo para -TUDUM!!!!-, e a gaveta M-41 estremeceu em
sua mente. Isso era demais para ela, era hora e ir tomar um café e
deixar essas miragens auditivas descansarem até afundarem no seu
subconsciente e ali permanecerem. Percorreu o caminho mais longo para
a sala de recreação e refeitório, e ao cruzar o saguão viu apenas
a boca de Carhisma se mover, de forma lenta e longa, mas a
articulação pareceu jamais chegar aos tímpanos, percorrer o seu
ouvido médio e interior até se tornar apenas sinais para o seu
cérebro bagunçado no momento. Somente ao chegar no cantinho do café
compreendeu a fala de moça formando ecos de um passado tão longe e
tão perto ao mesmo tempo.
–
Alguém quer me ver? Sua própria voz saia como se percorresse uma
longa tubulação metálica.
–
Doutora Werther, tem um minuto? Preciso conversar com a senhora. A
voz masculina emanada da entrada da saleta a trouxe a realidade, como
quem acorda de um sonho no qual caíra do alto de um prédio bem
grande.
–
Pois não? Se for bem rápido, eu tenho uma noite bem longa pela
frente e não posso me demorar fora do meu postos, novas regras….
–
Acho que seus pacientes não vão se incomodar se houver uns 10
minutos de conversa entre nós, diz o homem, vestido de branco, num
terno bem cortado e sapatos novos, italianos sem dúvidas, a bengala
cor de ébano contrasta com a roupa, o rosto liso e o cabelo grisalho
integravam uma imagem respeitável.
–
Claro, desde que não tente me evangelizar, Sue se espantou com a
própria ironia, não sabia se o a ironia inicial do homem a
contaminou, se foi o sotaque, ou a situação em si, mas estava
levemente inclinada a ouvir o….
–
Seu nome é?
–
Desculpe, Harold, doutor Willian Harold, Traumatologista e ex médico
do exercito inglês.
–
Como?
–
Meu português está errado?
–
Inglês? O que é isso? Se veio por causa da nova política do
governos está no lugar errado meu amigo.
–
Não, eu não vim por isso, vim por saber que era seu turno e que
poderia trocar algumas informações.
–
Eu nem te conheço.
Susana
se avançou violentamente, decidida a chamar a segurança, mas o
homem a interrompeu com a frase:
–
Eu sei o que está lá e é isso que eu quero lhe alertar, tem algo
de muito errado aqui e lá no fundo você sabe, e já sentiu.
–
Doido, só pode ser. Mais uma vez, Sue experimentou o sabor de uma
emoção, essa noite foram tantas que sua boca se tornara ácida em
demasia.
Desorientada,
Susana partiu novamente para seus afazeres e deixar tudo isso de
lado, sabe que lá ninguém entraria sem sua permissão, não
importando o argumento, título ou nacionalidade. Passou tão rápido
que quase nota, mas não de todo, outra figura nova no saguão, outro
homem, alto e com a famosa e chamativa camisa da seleção
brasileira, e só por isso ela o viu, de canto de olho conversando
com Carhisma, estranho, que noite. Ela ouviu seu nome ser chamado
pelo doutor Harold, e o toc-toc da bengala, podia imaginar o porque
de seu uso, os passos dele eram irregulares, talvez um defeito
congênito, acidente, que importância tinha? Depois que entrasse em
seu castelo, a rainha de gelo não poderia ser mais alcançada. A
porta foi atravessada e o auge da bizarrice da noite se manifestou,
gaveta aberta, e o mais estranho era tratar-se da terceira gaveta,
ela conseguiu ver um homem embaixo da prancha segurando
desesperadamente dois braços flácidos que se debatiam e tentavam
arranhar as mangas do terno de seu perto comum, enquanto um outro
homem segurava uma lâmina inox, de dois palmos talvez, fazendo mira.
–
Mierda, asiéndose la cabeza, o se quedará toda la noche.
–
Cara, eu sou da ABIN e não especialista em judô, ou seja lá o que
for.
–
Mas o que significa isso? Susana gofou entre o nervosismo e o
espanto.
–
Isso vai ser difícil de explicar, desculpem me amigos, acho que não
fui tão efetivo em mantê-la ocupada. Harold se voltou para Susana e
disse, sabe aquelas histórias de gente voltando da morte e saindo da
cova para matar mais gente? Pois então, já não é mais ficção.
Um
grunhido sobe, um facão desce, uma cabeça rola, o homem de terno
pragueja, e a Doutora Susana em pouco mais de duas horas perde o
chão, o castelo, e o senso de realidade, em apenas um baque de metal
quando encontra outra superfície de metal, e acorda para o pesadelo,
com o baque oco de uma cabeça no piso, que ainda mexe as mandíbulas
e abre os olhos brancos como a névoa das manhas de Três Saltos.

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