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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Quem é quem?

Uma narrativa em geral, gira em torno de dois polos, de um lado temos o protagonista que é a estrela e o foco do texto. No outro extremo temos o antagonista, aquele que se opõe ao protagonista. Não necessariamente são a personificação do bem e do mal, mas em geral essa visão facilita bastante na hora da escrita e já traz um "background", ou seja um dado histórico das personagens, que pode ajudar a trazer coerência nas ações e pensamentos deles ao longo da obra, e depois temos os coadjuvantes, que se agrupam entre as possibilidades, ou de forma neutra ao longo do texto. A composição de uma personagem é tão importante quanto a composição de todo o cenário que o cerca, quantos filmes já não condenamos por terem estes mudando de alinhamento sem qualquer motivo, ou que são incoerentes se compararmos com ele mesmo no início de um livro e não termos uma explicação para isso, pode ser frustrante ter um texto muito bom, mas com aqueles que fazem as ações ou sofrem as consequências de uma, agindo como se estivessem numa novela. Quanto maior a densidade do que se escreve, mais se necessita de personagens coerentes. Uma boa saída é fazer um check list de de cada personagem central e um menos detalhado para os secundários, para evitar que haja furos de ações ou julgamentos, e nem é necessário infundi-los no corpo da obra, essa lista será um guia para as decisões de enredo que precisam ser revistas no andamento da escrita, e também evita que seja preciso recorrer a releitura sempre que uma situação parecida com uma já ocorrida aparecer.
Vamos organizar agora, e podemos usar uma sequência de filmes para auxiliar neste momento, nos três primeiros filmes da cosmologia "Indiana Jones", temos uma evolução de Dr. Jones bastante clara e ainda a manutenção de algumas características originais, como o chicote e o seu pavor inconsciente de cobras. Mas no filme mais atual, temos algumas situações até cômicas, mas que não seguem a linha dos primeiros longas, como por exemplo, Dr. Jones se escondendo em uma geladeira para escapar de uma explosão nuclear, que até o exército americano verificou e descartou a hipótese de isso dar certo. Mais uma vez, os personagens dificilmente mudam de conduta em obras literárias.
Sim, pode acontecer uma inversão de papéis, mas não funcionaria muito bem se isso fosse recorrente ou acontecesse de forma muito brusca, pois corre-se o risco de frustrar o leitor. Peguemos outro exemplo, no livro "Ivanhoé", Auterstain, tio do protagonista, morre em uma batalha decisiva do texto e retorna no último capítulo, e por que isso acontece? Nesta situação em específico foi uma comoção entre os leitores que obrigou o autor a rever essa situação, mesmo assim, ele reviveu a personagem mas sem alterar o seu falecimento em batalha, ele apenas acrescentou uma órfão na obra com a reparação de que Auterstain caíra em profunda inconsciência e acordou no meio do velório. Funcionou muito bem no contexto da obra, e assim ainda ressaltou o profundo senso de superstição do período medieval, mas, de modo geral, quando ocorre uma ação contrária ao alinhamento de um personagem ou uma situação que não pode ser assimilado pelo cosmos da obra, existe uma quebra de verossimilhança, ou seja, é como se Deus saísse de férias e o caos tomasse conta da narrativa.
Outra forma de manter um certo equilíbrio é não apenas abordar pontos positivos, mas também os negativos das personagens, defeitos aproximam mais os leitores, por criar uma identificação com os mesmos, neste mundo a perfeição é rara ou inexistente, e se pegamos um livro no qual isso acontece com frequência nosso próprio inconsciente cria uma zona de desconforto com relação ao texto. Não tenha medo de colocar um ou dois defeitos nos protagonistas, antagonistas e coadjuvantes, pois isso pode servir até como uma ferramenta mais adiante.
Por enquanto é só, voltarei a este extenso assunto sobre os personagens  para trabalhar outras coisas, como por exemplo, os arquétipos presentes na literatura.
Inté...

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